Dentro do Segredo, José Luís Peixoto
«Dentro do Segredo – uma viagem na Coreia do Norte
é a surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens, e um
olhar inédito e fascinante que nos leva ao quotidiano da sociedade mais fechada
do mundo.
Em Abril de 2012, José Luís Peixoto teve a oportunidade
de assistir às exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim
Il-sung, em Pyongyang. Nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa
que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos
os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e
lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de seis décadas.
Dentro da ditadura mais repressiva do mundo, dentro de um
país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo.»
Ordem. Disciplina. Tensão. São estas as palavras que se
sentem logo nas primeiras páginas.
Também nas primeiras páginas, o autor afirma que é contra
todos os regimes totalitários e ditaduras, e que o que levou à Coreia do Norte
foi apenas a curiosidade de tentar perceber o quotidiano de quem vive nessas
sociedades. Logo aqui identifiquei-me bastante com José Luís Peixoto, porque
também eu sinto uma curiosidade tremenda por estas sociedades fechadas, em
saber realmente como é viver num país que quase ninguém sabe nada sobre. Perceber
como é que tudo funciona, desde as coisas mais básicas, como ir ao
supermercado, até ao ensino ou sistema de saúde.
Se olharmos à nossa volta, verificamos que praticamente
tudo é importado: a roupa que usamos, a televisão, o telemóvel, o computador, a
comida que comemos, a máquina do café, os livros, os filmes, a música. Agora imaginem
viver num país em que nada disto existe. As pouquíssimas coisas que existem na Coreia do Norte vêm da China e muitas delas são inúteis ou
estão fora do prazo. Tudo o que um norte-coreano come, ouve, lê, vê é
tradicional e produzido no país. Tudo, desde as pessoas, passando pelas
instituições, até aos monumentos/construções, têm um forte sentido de pertença
e de culto ao líder, duas características do regime que são explicadas, em parte,
graças à história trágica do país: primeiro, a ocupação japonesa e, depois, a
Guerra da Coreia. Estes dois acontecimentos, ambos terríveis, causaram danos na
população e no seu modo de ver e estar na vida. Por isso mesmo, não é de admirar
o amor, fascínio e devoção que os norte-coreanos sentem por Kim Il-Sung, "o
grande líder", inscrito na Constituição do país como o seu Presidente Eterno e
considerado o pai e salvador da Coreia do Norte.
Wow. Que livro. Em 4/5 dias, viajei para a Coreia do Norte
com o José. Não o escritor, mas a pessoa com uma curiosidade imensa sobre esta
sociedade. Propôs-se a ir à Coreia do Norte e foi. Com este livro, também eu
fui a esse país. Também eu vi as pessoas, as bicicletas, as paisagens e
observei comportamentos. Também eu senti a agonia de estar num país sem
liberdade e com vigilância constante. Também eu senti a dança, a música, o
trabalho rural, a encenação. Também eu senti cada palavra escrita por José Luís
Peixoto.
Foi uma bela viagem, esta. Sublinhei muito o livro,
apontei várias coisas, fiz alguns comentários para mim própria. Sinto, sem sombra
de dúvida, que fiquei a conhecer um pouco mais o país mais fechado do mundo.
O único reparo que tenho a fazer é o seguinte: gostava
que o livro tivesse algumas fotos a demonstrar o relato, penso que o tornaria
ainda mais interessante. O autor confessou que, ainda que existisse a proibição
de tirar fotografias sem autorização, ele ainda tirou algumas e penso que estas
poderiam ter sido aproveitadas.
Alguns
factos partilhados por José Luís Peixoto:
A
Coreia do Norte é o país mais isolado do mundo.
Tem
o maior culto de personalidade da história do mundo
Não
se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte
Não
se podia levar drogas, narcóticos e venenos, mas também era interdito levar
obras históricas, culturais e artísticas. Não era permitido entrar no país com
qualquer tipo de material impresso.
Não
se pode tirar fotografias durante a viagem
Os estrangeiros têm de andar sempre acompanhados por dois
guias norte-coreanos
Os estrangeiros não podem andar sozinhos na rua.
E algumas citações:
"As estações, onde o comboio parava ou não, tinham sempre uma enorme fotografia de Kim Il-sung no ponto mais alto. Essas fotografias ficavam no lugar onde me parecia que, normalmente, deveria estar o relógio da estação. Assim, era como se Kim Il-sung medisse o tempo."
"A guia exagerava uma expressão de preocupação e dor nos momentos em que o inimigo, graças à sua perfídia, avançava. Depois, como o nascer do dia, o seu rosto iluminava-se quando o valente exército norte-coreano, sempre sob a firme e sábia liderança do grande líder, garantia mais uma vitória na tal vitoriosa guerra de libertação da pátria."
"Eu, em Pyongyang, na Coreia do Norte, e a minha mãe a perguntar-me:
Está tudo bem por aí?
Considero-me prático e funcional. Respondi sempre do lado do senso comum. Dizer que estava tudo bem era a minha maneira de dizer que não estava doente, que não tinha sido preso e que contava regressar a casa como combinado. Mas, claro, essa não era a resposta completa a uma pergunta tão vasta."
"O sol daquela manhã era óbvio para a menina Kim. Da mesma maneira, não surpreendia nenhum norte-coreano. Afinal, Kim Il-sung era frequentemente chamado «Sol da Humanidade» e ninguém esperaria que os elementos não lhe obedecessem no seu próprio dia."
"O meu coração existia dentro de mim. Todas as luzes estavam apagadas. Corri sozinho na direcção do rio Taedong. Havia milhares e milhares de pessoas nas suas margens. Através do negro opaco, passava entre elas. A única claridade vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentavam havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado, na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano. Houve mesmo pessoas a dirigirem-se a mim, a dizerem-me qualquer coisa, sem esperarem resposta. Isto, que parece pouco, foi tudo para mim, encheu-me. Esse foi o momento mais intenso que vivi na Coreia do Norte."
tema Uma Dúzia de Livros: um livro passado num sítio que não conheces
Book Bingo Leituras ao Sol: um livro de um autor que nunca leste
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