segunda-feira, 15 de julho de 2019

Leituras Desassossegadas #54

Sapiens, Yuval Noah Harari

«Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Noah Harari analisa os principais saltos evolutivos da humanidade, desde as espécies humanas que coexistiam na Idade da Pedra até às revoluções tecnológicas e políticas do século XXI — que nos transformaram em deuses, capazes de criar e de destruir. 
Esta é uma obra desafiadora, desconcertante e inteligente, uma perspectiva única e original sobre a nossa História e o impacto do ser humano no planeta.»

Ao longo do livro, Harari demonstra como três revoluções mudaram o curso da história da humanidade: a Revolução Cognitiva, a Revolução Agrícola e a Revolução Científica.
A Revolução Cognitiva deu-nos a capacidade de criar ficção, só o Sapiens consegue transmitir informação sobre coisas que não existem. Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva e a ficção é bastante importante na história da humanidade, já que é através dela, e de mitos comuns, que os humanos conseguem cooperar. 
"Any large-scale human cooperation – whether a modern state, a medieval church, an ancient city or an archaic tribe – is rooted in common myths that exist only in people's collective imagination."

Já a Revolução Agrícola, segundo Harari, foi a maior fraude da História. Segundo o autor, a vida ficou mais difícil, trouxe a preocupação com o futuro (ansiedade) e, apesar de haver mais comida, isso não resultou numa dieta melhor.
"This is the essence of the Agricultural Revolution: the ability to keep more people alive under worse conditions."
A Revolução Agrícola trouxe, também, a oportunidade de criar cidades e impérios, ou seja, a fundação de sistemas políticos e sociais. Estes sistemas só funcionavam graças à cooperação, baseada em "ordens imaginadas", na crença em mitos partilhados.

Para além destes temas, o autor ainda aborda a categorização e hierarquização das sociedades: porque é que o homem é visto como superior em quase todas as culturas? Porque é que houve uma necessidade de catalogar as pessoas? Porque é que, mesmo não havendo uma explicação lógica ou biológica, as sociedades sócio-políticas foram organizadas desta maneira?
Através de explicações, essas sim com bases científicas, Harari esclarece e diferencia as crenças que são sociais e culturais daquilo que, de facto, é biológico e científico.

Antes de abordar a Revolução Científica, o autor ainda trata de três conceitos, que na sua opinião, uniram a humanidade: o dinheiro, os impérios e as religiões. Numa das minhas partes preferidas (Part Three), é explicado como a história está a mover-se em direcção à unidade, dando o exemplo de que, hoje em dia, grande parte do mundo partilha o mesmo sistema geopolítico, o mesmo sistema económico, o mesmo sistema legal e o mesmo sistema científico.
É-nos aclarado como o comércio trouxe união global, em como esse comércio foi implementado pelos impérios e em como esses impérios investiram na ciência, para poderem fazer mais comércio, para poderem crescer e, depois, investir mais na ciência, e assim sucessivamente.

Um dos capítulos mais provocadores é o que trata sobre as religiões, em que, primeiramente, Harari aborda o monoteísmo, o politeísmo, o dualismo e, por último, o budismo. Há uma altura, que deve ter feito saltar da cadeira muitas pessoas, em que, para explicar porque é que o monoteísmo (e, sobretudo, o catolicismo) não consegue explicar a maldade, Harari escreve o seguinte: "There is one logical way of solving the riddle: to argue that there is a single omnipotent God who created the entire universe – and He's evil". Imaginem só o Papa a ler isto…
Bom, para além destas tradicionais, Harari argumenta que, na era moderna, surgiram novas religiões: liberalismo, comunismo, nazismo, capitalismo, entre outras. Todas acreditam numa ordem super-humana, todas têm um sistema de normas e valores, todas têm os seus textos sagrados e todas têm feriados e festivais adjacentes.

Voltando à Revolução Científica, neste capítulo é esclarecido como é que a descoberta de que somos ignorantes foi, por si só, revolucionária e transformadora; porque é que foram os europeus que partiram à descoberta do mundo, quando, por exemplo, chineses, indianos ou muçulmanos tinham as mesmas invenções tecnológicas; qual era o potencial que a Europa tinha que lhe permitiu dominar o mundo; e, por último, qual foi o legado dos impérios europeus.
A Revolução Científica originou a ideia de "progresso" e, já sabem, o progresso e o capitalismo andam de mãos dadas. Foi com Adam Smith que a riqueza passou a ser vista com bons olhos, já que, segundo o economista, o crescimento económico é o bem supremo de uma sociedade, crescimento esse que só pode ser investido pelos ricos, e que trará justiça, liberdade e, até, felicidade a essa mesma sociedade.
A indústria, o consumismo, a ecologia e as mudanças na vida familiar e da comunidade são também assuntos que merecem a atenção do autor e que derivaram da Revolução Científica.
Este também foi dos meus capítulos favoritos, pois fez-me perceber as razões para vivermos no mundo em que vivemos, para ser assim e não de outra maneira, e conseguiu explicar muito bem as bases da sociedade moderna.

As comunidades imaginadas são um tema recorrente em Sapiens, porquanto, na opinião do autor, grande parte do que nos rodeia é imaginado, ou seja, não existe fora das nossas mentes: a nação, os direitos humanos, o mercado, o Estado, a lei e todo o sistema judicial, as religiões, o dinheiro, os países, tudo isto são ideias da nossa cabeça. Enquanto nós acreditarmos que elas existem, essas ideias existem. Mas não são reais.
"An imagined reality is something that everyone believes in, and as long as this communal belief persists, the imagined reality exerts force in the world."

A abordagem à felicidade, nos últimos capítulos, é das partes mais interessante do livro, na minha opinião. Estaremos mais felizes? Depois de todas as revoluções, depois de todas as conquistas, depois de milénios de existência, estará o Sapiens mais feliz? Esta é uma pergunta que não podemos responder, uma pergunta que os historiadores evitam responder (nem a questionam!), uma pergunta que é complexa. Harari afirma que os historiadores estudam e pesquisam praticamente sobre tudo – política, sociedade, economia, doenças, comida, género, entre outros – mas que raramente pararam para perguntare como é que todas estas coisas influenciam a felicidade humana.
"Most history books focus on the ideas of great thinkers, the bravery of warriors, the charity of saints and the creativity of artists. They have much to tell about the weaving and unravelling of social structures, about the rise and fall of empires, about the discovery and spread of technologies. Yet they say nothing about how all this influenced the happiness and suffering of individuals. This is the biggest lacuna in our understanding of history."

O último capítulo do livro analisa, brevemente, o presente e o futuro do Sapiens, e o meu cérebro explodiu nestas páginas em que se fala de biotecnologia, engenharias, informática e outras coisas do género. Sendo eu uma pessoa de letras, senti-me uma completa ignorante enquanto lia o final do livro. Presumo que estes assuntos sejam abordados no Homo Deus, e claro que o quero ler, para ver se deixo de ser um bocadinho menos naba nestas áreas.

Depois deste breve – brevíssimo! – resumo do livro, se não ficaram com vontade de ler, não sei o que vos faça. Acho que é o melhor livro de não-ficção que já li na vida, o melhor a explicar a história do ser humano e a fazer entender o quão pequenos nós somos e quão pouco espaço ocupamos na História. Através da antropologia, sociologia, ciência, política, com uma escrita fácil e simples de se entender (nada aborrecido), Yuval Noah Harari leva-nos, através do tempo, a viajar aos primórdios da humanidade, não nos deixa esquecer que somos animais e, sobretudo, relembra-nos que o futuro é incerto.
"History teaches us that what seems to be just around the corner may never materialise due to unforeseen barriers, and that other unimagined scenarios will in fact come to pass."

Se tiverem que escolher um dos inúmeros livros que eu já recomendei aqui (e olhem que há muitos muito bons!), se só tiverem que escolher um, escolham o Sapiens. Que livro do caraças!! Sapiens muda-nos a vida, muda a nossa forma de pensar e de olhar para o mundo, abre-nos a porta para uma possibilidade de coisas que nunca tínhamos imaginado e, especialmente, torna-nos mais conscientes de tudo o que nos rodeia. Super recomendo!


Livro escolhido para o Book Bingo Leituras ao Sol na categoria "livro recomendado por um amigo".
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inglês (li-o em inglês lê-se bastante bem, pois não tem linguagem complicada ou demasiado técnica)

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