Sapiens,
Yuval Noah Harari
«Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Noah Harari analisa os principais saltos evolutivos da humanidade, desde as espécies humanas que coexistiam na Idade da Pedra até às revoluções tecnológicas e políticas do século XXI — que nos transformaram em deuses, capazes de criar e de destruir.
Esta é uma obra desafiadora, desconcertante e inteligente, uma perspectiva única e original sobre a nossa História e o impacto do ser humano no planeta.»
Ao longo do livro, Harari demonstra como três revoluções
mudaram o curso da história da humanidade: a Revolução Cognitiva, a Revolução Agrícola
e a Revolução Científica.
A Revolução Cognitiva deu-nos a capacidade de criar
ficção, só o Sapiens consegue transmitir informação sobre coisas que não existem.
Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução
Cognitiva e a ficção é bastante importante na história da humanidade, já que é
através dela, e de mitos comuns, que os humanos conseguem cooperar.
"Any large-scale
human cooperation – whether a modern state, a medieval church, an ancient city
or an archaic tribe – is rooted in common myths that exist only in people's
collective imagination."
Já a Revolução Agrícola, segundo Harari, foi a maior
fraude da História. Segundo o autor, a vida ficou mais difícil, trouxe a
preocupação com o futuro (ansiedade) e, apesar de haver mais comida, isso não
resultou numa dieta melhor.
"This is the essence
of the Agricultural Revolution: the ability to keep more people alive under worse
conditions."
A Revolução Agrícola trouxe, também, a oportunidade de
criar cidades e impérios, ou seja, a fundação de sistemas políticos e sociais. Estes
sistemas só funcionavam graças à cooperação, baseada em "ordens imaginadas", na
crença em mitos partilhados.
Para além destes temas, o autor ainda aborda a
categorização e hierarquização das sociedades: porque é que o homem é visto
como superior em quase todas as culturas? Porque é que houve uma necessidade de
catalogar as pessoas? Porque é que, mesmo não havendo uma explicação lógica ou
biológica, as sociedades sócio-políticas foram organizadas desta maneira?
Através de explicações, essas sim com bases científicas, Harari
esclarece e diferencia as crenças que são sociais e culturais daquilo que, de
facto, é biológico e científico.
Antes de abordar a Revolução Científica, o autor ainda trata
de três conceitos, que na sua opinião, uniram a humanidade: o dinheiro, os impérios
e as religiões. Numa das minhas partes preferidas (Part Three), é explicado como a história está a mover-se em direcção à unidade, dando o exemplo de que, hoje
em dia, grande parte do mundo partilha o mesmo sistema geopolítico, o mesmo sistema
económico, o mesmo sistema legal e o mesmo sistema científico.
É-nos aclarado como o comércio trouxe união global, em
como esse comércio foi implementado pelos impérios e em como esses impérios
investiram na ciência, para poderem fazer mais comércio, para poderem crescer e, depois, investir mais na ciência, e assim sucessivamente.
Um dos capítulos mais provocadores é o que trata sobre as
religiões, em que, primeiramente, Harari aborda o monoteísmo, o politeísmo, o
dualismo e, por último, o budismo. Há uma altura, que deve ter feito saltar da
cadeira muitas pessoas, em que, para explicar porque é que o monoteísmo (e, sobretudo,
o catolicismo) não consegue explicar a maldade, Harari escreve o seguinte: "There
is one logical way of solving the riddle: to argue that there is a single omnipotent
God who created the entire universe – and He's evil". Imaginem só o Papa a ler
isto…
Bom, para além destas tradicionais, Harari argumenta que,
na era moderna, surgiram novas religiões: liberalismo, comunismo, nazismo, capitalismo,
entre outras. Todas acreditam numa ordem super-humana, todas têm um sistema de
normas e valores, todas têm os seus textos sagrados e todas têm feriados e
festivais adjacentes.
Voltando à Revolução Científica, neste capítulo é
esclarecido como é que a descoberta de que somos ignorantes foi, por si só,
revolucionária e transformadora; porque é que foram os europeus que partiram à descoberta
do mundo, quando, por exemplo, chineses, indianos ou muçulmanos tinham as mesmas
invenções tecnológicas; qual era o potencial que a Europa tinha que lhe permitiu
dominar o mundo; e, por último, qual foi o legado dos impérios europeus.
A Revolução Científica originou a ideia de "progresso" e,
já sabem, o progresso e o capitalismo andam de mãos dadas. Foi com Adam Smith
que a riqueza passou a ser vista com bons olhos, já que, segundo o economista,
o crescimento económico é o bem supremo de uma sociedade, crescimento esse que só
pode ser investido pelos ricos, e que trará justiça, liberdade e, até, felicidade
a essa mesma sociedade.
A indústria, o consumismo, a ecologia e as mudanças na
vida familiar e da comunidade são também assuntos que merecem a atenção do
autor e que derivaram da Revolução Científica.
Este também foi dos meus capítulos favoritos, pois fez-me perceber as razões para vivermos no mundo em que vivemos, para ser assim e não de outra maneira, e conseguiu explicar muito bem
as bases da sociedade moderna.
As comunidades imaginadas são um tema recorrente em Sapiens,
porquanto, na opinião do autor, grande parte do que nos rodeia é imaginado, ou
seja, não existe fora das nossas mentes: a nação, os direitos humanos, o
mercado, o Estado, a lei e todo o sistema judicial, as religiões, o dinheiro,
os países, tudo isto são ideias da nossa cabeça. Enquanto nós acreditarmos que
elas existem, essas ideias existem. Mas não são reais.
"An imagined reality
is something that everyone believes in, and as long as this communal belief
persists, the imagined reality exerts force in the world."
A abordagem à felicidade, nos últimos capítulos, é das
partes mais interessante do livro, na minha opinião. Estaremos mais felizes? Depois
de todas as revoluções, depois de todas as conquistas, depois de milénios de
existência, estará o Sapiens mais feliz? Esta é uma pergunta que não podemos
responder, uma pergunta que os historiadores evitam responder (nem a questionam!),
uma pergunta que é complexa. Harari afirma que os historiadores estudam e pesquisam
praticamente sobre tudo – política, sociedade, economia, doenças, comida,
género, entre outros – mas que raramente pararam para perguntare como é que
todas estas coisas influenciam a felicidade humana.
"Most history books focus
on the ideas of great thinkers, the bravery of warriors, the charity of saints
and the creativity of artists. They have much to tell about the weaving and
unravelling of social structures, about the rise and fall of empires, about the
discovery and spread of technologies. Yet they say nothing about how all this
influenced the happiness and suffering of individuals. This is the biggest lacuna
in our understanding of history."
O último capítulo do livro analisa, brevemente, o presente
e o futuro do Sapiens, e o meu cérebro explodiu nestas páginas em que se fala
de biotecnologia, engenharias, informática e outras coisas do género. Sendo eu
uma pessoa de letras, senti-me uma completa ignorante enquanto lia o final do livro.
Presumo que estes assuntos sejam abordados no Homo Deus, e claro que o
quero ler, para ver se deixo de ser um bocadinho menos naba nestas áreas.
Depois deste breve – brevíssimo! – resumo do livro, se não
ficaram com vontade de ler, não sei o que vos faça. Acho que é o melhor livro
de não-ficção que já li na vida, o melhor a explicar a história do ser humano e
a fazer entender o quão pequenos nós somos e quão pouco espaço ocupamos na História. Através da antropologia, sociologia, ciência, política, com uma
escrita fácil e simples de se entender (nada aborrecido), Yuval Noah Harari leva-nos,
através do tempo, a viajar aos primórdios da humanidade, não nos deixa esquecer
que somos animais e, sobretudo, relembra-nos que o futuro é incerto.
"History teaches us
that what seems to be just around the corner may never materialise due to unforeseen
barriers, and that other unimagined scenarios will in fact come to pass."
Se tiverem que escolher um dos inúmeros livros que eu já
recomendei aqui (e olhem que há muitos muito bons!), se só tiverem que escolher
um, escolham o Sapiens. Que livro do caraças!! Sapiens muda-nos a
vida, muda a nossa forma de pensar e de olhar para o mundo, abre-nos a porta
para uma possibilidade de coisas que nunca tínhamos imaginado e, especialmente,
torna-nos mais conscientes de tudo o que nos rodeia. Super recomendo!
Livro escolhido para o Book Bingo Leituras ao Sol na categoria "livro recomendado por um amigo".
Comprar livro:
inglês (li-o em inglês lê-se bastante bem, pois não tem linguagem complicada ou demasiado técnica)

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