segunda-feira, 15 de julho de 2019

Leituras Desassossegadas #54

Sapiens, Yuval Noah Harari

«Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Noah Harari analisa os principais saltos evolutivos da humanidade, desde as espécies humanas que coexistiam na Idade da Pedra até às revoluções tecnológicas e políticas do século XXI — que nos transformaram em deuses, capazes de criar e de destruir. 
Esta é uma obra desafiadora, desconcertante e inteligente, uma perspectiva única e original sobre a nossa História e o impacto do ser humano no planeta.»

Ao longo do livro, Harari demonstra como três revoluções mudaram o curso da história da humanidade: a Revolução Cognitiva, a Revolução Agrícola e a Revolução Científica.
A Revolução Cognitiva deu-nos a capacidade de criar ficção, só o Sapiens consegue transmitir informação sobre coisas que não existem. Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva e a ficção é bastante importante na história da humanidade, já que é através dela, e de mitos comuns, que os humanos conseguem cooperar. 
"Any large-scale human cooperation – whether a modern state, a medieval church, an ancient city or an archaic tribe – is rooted in common myths that exist only in people's collective imagination."

Já a Revolução Agrícola, segundo Harari, foi a maior fraude da História. Segundo o autor, a vida ficou mais difícil, trouxe a preocupação com o futuro (ansiedade) e, apesar de haver mais comida, isso não resultou numa dieta melhor.
"This is the essence of the Agricultural Revolution: the ability to keep more people alive under worse conditions."
A Revolução Agrícola trouxe, também, a oportunidade de criar cidades e impérios, ou seja, a fundação de sistemas políticos e sociais. Estes sistemas só funcionavam graças à cooperação, baseada em "ordens imaginadas", na crença em mitos partilhados.

Para além destes temas, o autor ainda aborda a categorização e hierarquização das sociedades: porque é que o homem é visto como superior em quase todas as culturas? Porque é que houve uma necessidade de catalogar as pessoas? Porque é que, mesmo não havendo uma explicação lógica ou biológica, as sociedades sócio-políticas foram organizadas desta maneira?
Através de explicações, essas sim com bases científicas, Harari esclarece e diferencia as crenças que são sociais e culturais daquilo que, de facto, é biológico e científico.

Antes de abordar a Revolução Científica, o autor ainda trata de três conceitos, que na sua opinião, uniram a humanidade: o dinheiro, os impérios e as religiões. Numa das minhas partes preferidas (Part Three), é explicado como a história está a mover-se em direcção à unidade, dando o exemplo de que, hoje em dia, grande parte do mundo partilha o mesmo sistema geopolítico, o mesmo sistema económico, o mesmo sistema legal e o mesmo sistema científico.
É-nos aclarado como o comércio trouxe união global, em como esse comércio foi implementado pelos impérios e em como esses impérios investiram na ciência, para poderem fazer mais comércio, para poderem crescer e, depois, investir mais na ciência, e assim sucessivamente.

Um dos capítulos mais provocadores é o que trata sobre as religiões, em que, primeiramente, Harari aborda o monoteísmo, o politeísmo, o dualismo e, por último, o budismo. Há uma altura, que deve ter feito saltar da cadeira muitas pessoas, em que, para explicar porque é que o monoteísmo (e, sobretudo, o catolicismo) não consegue explicar a maldade, Harari escreve o seguinte: "There is one logical way of solving the riddle: to argue that there is a single omnipotent God who created the entire universe – and He's evil". Imaginem só o Papa a ler isto…
Bom, para além destas tradicionais, Harari argumenta que, na era moderna, surgiram novas religiões: liberalismo, comunismo, nazismo, capitalismo, entre outras. Todas acreditam numa ordem super-humana, todas têm um sistema de normas e valores, todas têm os seus textos sagrados e todas têm feriados e festivais adjacentes.

Voltando à Revolução Científica, neste capítulo é esclarecido como é que a descoberta de que somos ignorantes foi, por si só, revolucionária e transformadora; porque é que foram os europeus que partiram à descoberta do mundo, quando, por exemplo, chineses, indianos ou muçulmanos tinham as mesmas invenções tecnológicas; qual era o potencial que a Europa tinha que lhe permitiu dominar o mundo; e, por último, qual foi o legado dos impérios europeus.
A Revolução Científica originou a ideia de "progresso" e, já sabem, o progresso e o capitalismo andam de mãos dadas. Foi com Adam Smith que a riqueza passou a ser vista com bons olhos, já que, segundo o economista, o crescimento económico é o bem supremo de uma sociedade, crescimento esse que só pode ser investido pelos ricos, e que trará justiça, liberdade e, até, felicidade a essa mesma sociedade.
A indústria, o consumismo, a ecologia e as mudanças na vida familiar e da comunidade são também assuntos que merecem a atenção do autor e que derivaram da Revolução Científica.
Este também foi dos meus capítulos favoritos, pois fez-me perceber as razões para vivermos no mundo em que vivemos, para ser assim e não de outra maneira, e conseguiu explicar muito bem as bases da sociedade moderna.

As comunidades imaginadas são um tema recorrente em Sapiens, porquanto, na opinião do autor, grande parte do que nos rodeia é imaginado, ou seja, não existe fora das nossas mentes: a nação, os direitos humanos, o mercado, o Estado, a lei e todo o sistema judicial, as religiões, o dinheiro, os países, tudo isto são ideias da nossa cabeça. Enquanto nós acreditarmos que elas existem, essas ideias existem. Mas não são reais.
"An imagined reality is something that everyone believes in, and as long as this communal belief persists, the imagined reality exerts force in the world."

A abordagem à felicidade, nos últimos capítulos, é das partes mais interessante do livro, na minha opinião. Estaremos mais felizes? Depois de todas as revoluções, depois de todas as conquistas, depois de milénios de existência, estará o Sapiens mais feliz? Esta é uma pergunta que não podemos responder, uma pergunta que os historiadores evitam responder (nem a questionam!), uma pergunta que é complexa. Harari afirma que os historiadores estudam e pesquisam praticamente sobre tudo – política, sociedade, economia, doenças, comida, género, entre outros – mas que raramente pararam para perguntare como é que todas estas coisas influenciam a felicidade humana.
"Most history books focus on the ideas of great thinkers, the bravery of warriors, the charity of saints and the creativity of artists. They have much to tell about the weaving and unravelling of social structures, about the rise and fall of empires, about the discovery and spread of technologies. Yet they say nothing about how all this influenced the happiness and suffering of individuals. This is the biggest lacuna in our understanding of history."

O último capítulo do livro analisa, brevemente, o presente e o futuro do Sapiens, e o meu cérebro explodiu nestas páginas em que se fala de biotecnologia, engenharias, informática e outras coisas do género. Sendo eu uma pessoa de letras, senti-me uma completa ignorante enquanto lia o final do livro. Presumo que estes assuntos sejam abordados no Homo Deus, e claro que o quero ler, para ver se deixo de ser um bocadinho menos naba nestas áreas.

Depois deste breve – brevíssimo! – resumo do livro, se não ficaram com vontade de ler, não sei o que vos faça. Acho que é o melhor livro de não-ficção que já li na vida, o melhor a explicar a história do ser humano e a fazer entender o quão pequenos nós somos e quão pouco espaço ocupamos na História. Através da antropologia, sociologia, ciência, política, com uma escrita fácil e simples de se entender (nada aborrecido), Yuval Noah Harari leva-nos, através do tempo, a viajar aos primórdios da humanidade, não nos deixa esquecer que somos animais e, sobretudo, relembra-nos que o futuro é incerto.
"History teaches us that what seems to be just around the corner may never materialise due to unforeseen barriers, and that other unimagined scenarios will in fact come to pass."

Se tiverem que escolher um dos inúmeros livros que eu já recomendei aqui (e olhem que há muitos muito bons!), se só tiverem que escolher um, escolham o Sapiens. Que livro do caraças!! Sapiens muda-nos a vida, muda a nossa forma de pensar e de olhar para o mundo, abre-nos a porta para uma possibilidade de coisas que nunca tínhamos imaginado e, especialmente, torna-nos mais conscientes de tudo o que nos rodeia. Super recomendo!


Livro escolhido para o Book Bingo Leituras ao Sol na categoria "livro recomendado por um amigo".
Comprar livro:
inglês (li-o em inglês lê-se bastante bem, pois não tem linguagem complicada ou demasiado técnica)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Leituras Desassossegadas #53

Equador, Miguel Sousa Tavares

«Quando naquela manhã chuvosa de Dezembro de 1905, Luís Bernardo é chamado por El-Rei D. Carlos a Vila Viçosa, não imaginava o que o futuro lhe reservava. Não sabia que teria de trocar a sua vida despreocupada na sociedade cosmopolita de Lisboa por uma missão tão patriótica quanto arriscada na distante ilha de S. Tomé. Não esperava que o cargo de governador e a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças o lançassem numa rede de conflitos e interesses com a metrópole. E não contava que a descoberta do amor lhe viesse mudar a vida.
Equador é um retrato brilhante da sociedade portuguesa nos últimos dias da Monarquia, que traça um paralelo entre os serões mundanos da capital e o ambiente duro e retrógrado das colónias.
É com esta história admirável, comovente e perturbadora, que Miguel Sousa Tavares inaugura a sua incursão no romance.»

Tenho sentimentos contraditórios em relação a Equador. Por um lado, acho que está extremamente bem-escrito, as descrições de Vila Viçosa e S. Tomé – uma no inverno, outra no verão – fizeram-me sonhar com estes locais e a história em si é promissora: um branco que quer acabar com o trabalho escravo nas roças de S. Tomé.
No entanto, não me revi muito na atitude do protagonista. Claro que sou contra a escravatura, não é essa a questão, mas penso que Luís Bernardo não fez nada enquanto Governador – nem acabou com a escravatura, nem deu suporte aos colonos. Parecia um tolo no meio da ponte.

A missão de Luís Bernardo não se adivinhava fácil (afinal, teria de destruir séculos e séculos da presunção branca); contudo, foi-nos apresentado um protagonista inteligente, com ideias humanistas e pronto para enfrentar a teimosia de quem ficou atrasado no tempo. Resumindo, tudo indicava que seria o homem certo para este cargo.
Na minha opinião, não foi isto que sucedeu. Por razões que não vou contar, senão contaria a história, o nosso Governador perde-se por caminhos bastante sinuosos e, muitas vezes, ainda pensa que não fez nada de errado. Gostei mais de algumas personagens secundárias do que propriamente do protagonista.

No entanto, uma das razões porque gostei muito deste livro foi o final, que é completamente surpreendente, e não estava mesmo nada à espera do que aconteceu, apesar de o autor ter dado algumas pistas logo no início do livro. Em geral, é um bom livro, dei-lhe 4 estrelas no Goodreads (podem adicionar-me), e é uma boa leitura de Verão.

Volto a afirmar que se quiserem comprar Equador, ou outro livro que tenham interesse, podem usar o meu link de afiliada da Bertrand. Não pagam mais por isso, e ajudam aqui este cantinho.

Equador foi a minha escolha para a categoria "um livro com capa em tons de azul" do Book Bingo Leituras ao Sol.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

TAG dos 50%

Hoje vim responder à TAG dos 50%, uma TAG muito badalada por este mundo livrólico, e que eu vou responder pela primeira vez desde a existência deste blogue. Para quem ainda não conhece, esta TAG consiste em falar sobre os melhores e piores livros de 2019 até agora, precisamente a meio do ano. Vamos a isso!

1- O melhor livro que leste até agora, em 2019.
Logo na primeira pergunta e já fiquei indecisa. Escolhi Capitães da Areia porque se tornou num favorito da vida (adorei tudo, tudo, tudo!), mas também poderia ter escolhido A Metamorfose ou Morrer Sozinho em Berlim.


2- A melhor continuação que leste até agora, em 2019.
Não sou pessoa de ler séries e, por isso, não tenho nenhum livro para esta categoria.

3- Algum lançamento do primeiro semestre que ainda não leste, mas queres muito.
Não costumo andar muito a par dos lançamentos, até porque é muito raro comprar livros sem qualquer tipo de desconto (e como as novidades têm aquela lei do preço fixo...)

4- O livro mais aguardado do segundo semestre.
Como afirmei, não sou muito de acompanhar novidades, mas este livro já foi falado por meio booktube fora de Portugal e todas as pessoas pareceram adorar. Fiquei tão entusiasmada com a história que aproveitei a Black Friday da Wook para o comprar com 20%. Estou muito ansiosa para o ler.


5- O livro que mais te decepcionou este ano.
Tinha alguma expectativas para com o VOX, mas revelou-se ser uma cópia bastante mal-feita de A História de uma Serva.


6- O livro que mais te surpreendeu esse ano.
Não sei bem o que esperava, mas Eleanor Oliphant is completely fine foi uma bela leitura. Ri muito, emocionei-me muito também e fiquei com um quentinho no coração depois de o ler. Foi uma óptima surpresa.


7- Novo autor favorito (que lançou o seu primeiro livro este semestre ou que conheceste recentemente).
Jorge Amado. Conheci o autor através de Capitães da Areia, o primeiro livro que li dele, e fiquei completamente apaixonada. Pela escrita, pela forma de contar histórias, por tudo.

8- A tua quedinha mais recente por um personagem fictício.
Não costumo ter "quedinhas" por personagens, e penso que este ano também ainda não tive nenhuma.

9- O teu personagem favorito mais recente.
O Professor, de Capitães da Areia. Nota-se que eu amei muito este livro?

10- Um livro que te fez chorar neste primeiro semestre.
É raro chorar com livros, mas Without Merit conseguiu essa proeza.


11- Um livro que te deixou feliz neste primeiro semestre.
Não pelo que é retratado, óbvio, mas escolho Dentro do Segredo, porque finalmente li este livro que já queria ler há anos.


12- Melhor adaptação cinematográfica de um livro que assististe até agora, em 2019.
Este ano está fraquíssimo em termos de adaptações. Ainda não vi nenhuma, penso eu.

13- A tua opinião favorita desse primeiro semestre (escrita ou em vídeo).
Não sei se é suposto falarmos da nossa, mas gostei muito de escrever sobre Morrer Sozinho em Berlim. Fez-me pensar no valor da palavra, das nossas crenças e de tudo o que implica lutar pelo que acreditamos.


14- O livro mais bonito que compraste ou ganhaste este ano.
Vou ter de deixar esta categoria em branco, penso que não comprei nenhum livro extraordinariamente bonito este ano. Até porque estou a ser muito contida nos livros que compro.

15- Quais livros precisas ou queres muito ler até ao final do ano?
Bem, até ao final do Verão, tenho para ler todos os livros que escolhi para o Book Bingo Leituras ao Sol. Para já estou focada nesta lista, depois vê-se.

Se quiserem comprar qualquer um destes livros na Bertrand, é só seguirem o link, não pagam mais por isso e ajudam aqui este cantinho. Obrigada!

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Junho em Filmes

Bohemian Rhapsody – "Bohemian Rhapsody é uma celebração da banda Queen, da sua música e do seu líder, Freddie Mercury (1946-1991), que desafiou os estereótipos e quebrou as convenções para se tornar um dos artistas populares mais venerados de sempre. O filme conta a história por detrás da ascensão dos Queen, surgidos em 1970, através de uma sonoridade muito própria que oscilou entre um rock grandiloquente e orquestral e uma pop capaz de fabricar sucessos retumbantes. Relata também a implosão iminente do grupo, graças ao estilo de vida de Mercury, e a sua reunião na véspera do festival Live Aid, no qual o cantor, compositor e pianista dos Queen, a debater-se com uma doença mortal, conduziu a sua banda para um dos concertos mais lendários da história da música popular."
Adorei tudo neste filme. Tudo, mesmo tudo. Claro que o destaque vai para o Rami Malek, mas como não? Que actor genial, incrível e fenomenal. Quem já vê Mr. Robot, não tinha dúvidas de que o Rami seria perfeito neste papel, mas mesmo assim… que actor que este homem é! Depois de ver o filme, claro que andei semanas sempre a ouvir Queen e o facto de este ter terminado com o We are the Champions reflecte na perfeição o que foi a história dos Queen e do Freddie. Muito, muito bom.



Bad Moms – "Amy Mitchell coloca a sua família em primeiro, segundo e terceiro lugares. Mas o seu marido dependente, os seus exigentes filhos e o seu chefe idiota estão a tornar-se num verdadeiro fardo… Ela sente que está constantemente a dar e que nunca é suficiente. Quando as "mães alfa" da escola dos seus filhos esticam demasiado a corda, Amy acaba por rebentar. A "Amy Boa" transforma-se na "Amy Má" - a alta velocidade com companhia. Juntamente com duas outras inadaptadas, Amy reclama a há muito merecida dose de liberdade que agita a sua vida e pode inclusive transformá-la numa melhor mãe..."
Verão pede filmes mais leves, tranquilos e que dão para passar o tempo. Obviamente que este filme não é nenhuma obra-prima, mas é divertido.



Christopher Robin – "O novo filme mostra Winnie The Pooh a visitar Christopher Robin. O problema é que o adulto que encontra não podia estar mais distante dos tempos do jovem rapaz das aventuras no Bosque dos 100 Acres: é agora um homem de negócios sem imaginação, completamente obcecado pelo trabalho e sucesso, que está prestes a perder a esposa e a filha. Caberá aos seus amigos de infância aventurarem-se pelo nosso mundo e ajudarem-no a lembrar-se do menino amoroso e divertido que ainda está dentro dele."
Eu adoro o Winnie The Pooh, o Piglet, o Tigre e companhia. Eram dos desenhos animados que eu mais via na infância, completamente deleitada pelo urso que nunca se fartava de mel. O filme é queridinho, exactamente o que se pede de uma adaptação real da Disney.



quarta-feira, 26 de junho de 2019

Uma Dúzia de Livros #6 (LD #52)

Dentro do Segredo, José Luís Peixoto

«Dentro do Segredo – uma viagem na Coreia do Norte é a surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens, e um olhar inédito e fascinante que nos leva ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo.
Em Abril de 2012, José Luís Peixoto teve a oportunidade de assistir às exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang. Nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de seis décadas.
Dentro da ditadura mais repressiva do mundo, dentro de um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo

Ordem. Disciplina. Tensão. São estas as palavras que se sentem logo nas primeiras páginas.

Também nas primeiras páginas, o autor afirma que é contra todos os regimes totalitários e ditaduras, e que o que levou à Coreia do Norte foi apenas a curiosidade de tentar perceber o quotidiano de quem vive nessas sociedades. Logo aqui identifiquei-me bastante com José Luís Peixoto, porque também eu sinto uma curiosidade tremenda por estas sociedades fechadas, em saber realmente como é viver num país que quase ninguém sabe nada sobre. Perceber como é que tudo funciona, desde as coisas mais básicas, como ir ao supermercado, até ao ensino ou sistema de saúde.

Se olharmos à nossa volta, verificamos que praticamente tudo é importado: a roupa que usamos, a televisão, o telemóvel, o computador, a comida que comemos, a máquina do café, os livros, os filmes, a música. Agora imaginem viver num país em que nada disto existe. As pouquíssimas coisas que existem na Coreia do Norte vêm da China e muitas delas são inúteis ou estão fora do prazo. Tudo o que um norte-coreano come, ouve, lê, vê é tradicional e produzido no país. Tudo, desde as pessoas, passando pelas instituições, até aos monumentos/construções, têm um forte sentido de pertença e de culto ao líder, duas características do regime que são explicadas, em parte, graças à história trágica do país: primeiro, a ocupação japonesa e, depois, a Guerra da Coreia. Estes dois acontecimentos, ambos terríveis, causaram danos na população e no seu modo de ver e estar na vida. Por isso mesmo, não é de admirar o amor, fascínio e devoção que os norte-coreanos sentem por Kim Il-Sung, "o grande líder", inscrito na Constituição do país como o seu Presidente Eterno e considerado o pai e salvador da Coreia do Norte.

Wow. Que livro. Em 4/5 dias, viajei para a Coreia do Norte com o José. Não o escritor, mas a pessoa com uma curiosidade imensa sobre esta sociedade. Propôs-se a ir à Coreia do Norte e foi. Com este livro, também eu fui a esse país. Também eu vi as pessoas, as bicicletas, as paisagens e observei comportamentos. Também eu senti a agonia de estar num país sem liberdade e com vigilância constante. Também eu senti a dança, a música, o trabalho rural, a encenação. Também eu senti cada palavra escrita por José Luís Peixoto.

Foi uma bela viagem, esta. Sublinhei muito o livro, apontei várias coisas, fiz alguns comentários para mim própria. Sinto, sem sombra de dúvida, que fiquei a conhecer um pouco mais o país mais fechado do mundo.

O único reparo que tenho a fazer é o seguinte: gostava que o livro tivesse algumas fotos a demonstrar o relato, penso que o tornaria ainda mais interessante. O autor confessou que, ainda que existisse a proibição de tirar fotografias sem autorização, ele ainda tirou algumas e penso que estas poderiam ter sido aproveitadas.

Alguns factos partilhados por José Luís Peixoto:
A Coreia do Norte é o país mais isolado do mundo.
Tem o maior culto de personalidade da história do mundo
Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte
Não se podia levar drogas, narcóticos e venenos, mas também era interdito levar obras históricas, culturais e artísticas. Não era permitido entrar no país com qualquer tipo de material impresso.
Não se pode tirar fotografias durante a viagem
Os estrangeiros têm de andar sempre acompanhados por dois guias norte-coreanos
Os estrangeiros não podem andar sozinhos na rua.

E algumas citações:
"As estações, onde o comboio parava ou não, tinham sempre uma enorme fotografia  de Kim Il-sung no ponto mais alto. Essas fotografias ficavam no lugar onde me parecia que, normalmente, deveria estar o relógio da estação. Assim, era como se Kim Il-sung medisse o tempo."

"A guia exagerava uma expressão de preocupação e dor nos momentos em que o inimigo, graças à sua perfídia, avançava. Depois, como o nascer do dia, o seu rosto iluminava-se quando o valente exército norte-coreano, sempre sob a firme e sábia liderança do grande líder, garantia mais uma vitória na tal vitoriosa guerra de libertação da pátria."

"Eu, em Pyongyang, na Coreia do Norte, e a minha mãe a perguntar-me:
Está tudo bem por aí?
Considero-me prático e funcional. Respondi sempre do lado do senso comum. Dizer que estava tudo bem era a minha maneira de dizer que não estava doente, que não tinha sido preso e que contava regressar a casa como combinado. Mas, claro, essa não era a resposta completa a uma pergunta tão vasta."

"O sol daquela manhã era óbvio para a menina Kim. Da mesma maneira, não surpreendia nenhum norte-coreano. Afinal, Kim Il-sung era frequentemente chamado «Sol da Humanidade» e ninguém esperaria que os elementos não lhe obedecessem no seu próprio dia."

"O meu coração existia dentro de mim. Todas as luzes estavam apagadas. Corri sozinho na direcção do rio Taedong. Havia milhares e milhares de pessoas nas suas margens. Através do negro opaco, passava entre elas. A única claridade vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentavam havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado, na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano. Houve mesmo pessoas a dirigirem-se a mim, a dizerem-me qualquer coisa, sem esperarem resposta. Isto, que parece pouco, foi tudo para mim, encheu-me. Esse foi o momento mais intenso que vivi na Coreia do Norte."


tema Uma Dúzia de Livros: um livro passado num sítio que não conheces
Book Bingo Leituras ao Sol: um livro de um autor que nunca leste
Já sabem, se quiser comprar este livro (que eu obviamente aconselho) ou outro, podem usar o meu link de afiliada da Bertrand: não pagam mais por isso e ajudam aqui este cantinho.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Book Bingo Leituras ao Sol 2019


Começa o Verão e começa mais uma edição do Book Bingo Leituras ao Sol, um desafio criado pela Isa, do Jardim de Mil Histórias, e pela Patrícia, d'O Prazer das Coisas. Participei pela primeira vez no ano passado e adorei, até consegui completar todas as categorias apesar de não estar nada à espera de ser bem-sucedida. Conforme já afirmei aqui várias vezes, não sou uma pessoa de fazer listas TBR. Leio o que me apetece no momento, não faço leituras planeadas, mas gostei tanto deste desafio no ano passado que este ano vou participar outra vez!

As categorias são diferentes, claro, mas o prazo é o mesmo – o Verão, ou seja, de 21 de Junho a 22 de Setembro. Mais uma vez, a lista é ambiciosa (16 livros em 3 meses), mas vou tentar fazer, pelo menos, um bingo. Na imagem, estão as categorias criadas. Venham participar!



Categorias:
* Um título que contenha as letras S-O-L
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Acho que é mesmo o único livro que eu tenho cá em casa cujo título contém as letras S-O-L, e estava mesmo difícil arranjar um livro para esta categoria. Já vi o filme, adorei, e parece-me que esta altura do verão é ideal para ler este livro.

* Um livro que levarias para a praia
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Um livro fininho, ideal para levar para a praia e que se lê numa tarde.

* Um livro que se passe no Verão
Esta categoria fica em branco, porque não estou a conseguir arranjar um livro para encaixar aqui. No ano passado, para esta categoria, li Call Me By Your Name e adorei completamente, de tal modo que se tornou dos meus livros preferidos. Espero que, entretanto, consiga encontrar um tesouro idêntico.

* Um livro esquecido na estante (mais de 3 anos)
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Já tenho este livro para aí desde 2015… uma verdadeira vergonha.
Não costumo ler muitos policiais, mas este autor é "considerado o maior escritor escocês de policiais da actualidade" e já merece ser lido.

* Um livro do teu género preferido
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Não tenho um único género preferido, mas distopias estão definitivamente entre os géneros que mais gosto. Admirável Mundo Novo é das distopias mais conhecidas, e estou muito curiosa para ler este livro.

* Um livro de um autor que gostavas de conhecer 
Nesta categoria, nem precisei de pensar mais do que um segundo. Saramago é o meu autor favorito da vida, e como é óbvio que adorava sentar-me com ele e ficar a conversar por horas a fio. Ainda tenho de ver qual é o livro que vou ler este ano e, por isso, também aqui ainda não tenho uma escolha definida.

* Um livro que se leia em 24 horas
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Um livro fininho, e que, por isso, leio em 24 horas. Apesar de ser curto, parece ser daqueles que fica connosco horas e dias após a leitura estar terminada.

* Um livro recomendado por um amigo
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Um dos livros mais falados dos últimos anos, toda a gente adora e já me foi recomendado por vários amigos. Estou com muita curiosidade com este livro.

* Um livro com capa em tons de azul
Resultado de imagem para equador miguel sousa tavares
Já ouvi muito bem sobre este livro, e a série da TVI deu muito que falar na altura (que eu não vi). A história parece-me ser gira, e acho que vou gostar muito.

* Um livro de um autor que nunca leste
Resultado de imagem para dentro do segredo jose luis peixoto
Conforme escrevi na publicação dos autores portugueses que quero ler, José Luís Peixoto está na minha lista há alguns anos, desde que foi à Coreia do Norte – um dos sítios que tenho mais curiosidade de conhecer – e escreveu um livro sobre a sua experiência.

* Um livro que se passe num local onde gostarias de passar férias
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Cumprindo a minha tradição de ler um livro de Harry Potter no Verão – só aconteceu no ano passado, mas vamos assumir que é tradição. Para um Potterhead, há lá melhor sítio para passar férias do que Hogwarts? E não Azkaban (Dumbledore nos livre). Quem não gostaria de passar férias em Hogwarts? E, quem sabe, viver lá…

* Escolhe um livro da tua estante de olhos fechados
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Tentei escolher um livro mais fino (desafio destes não são para calhamaços – apesar de eu ter um ou outro), e calhou este clássico português. Muito curiosa para o ler.

* Um livro que se passe num local onde já passaste férias
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Tenho este livro em inglês, o filme sai este ano (em setembro) e, por isso, parece-me a ocasião perfeita para o ler. Penso que grande parte da história de passa em Amsterdão (e o quadro é de um pintor holandês) e será muito bom voltar à capital holandesa através deste livro.

* Um livro recomendado por booktuber/blogger/instagrammer
Mais uma categoria que fica em branco. Neste caso, acontece porque tenho mil e uma recomendações e sou uma indecisa para escolher. Até Setembro, tenho tempo eheh

* Um dos últimos livros que te ofereceram
Resultado de imagem para a doença o sofrimento e a morte entram num bar
Livro oferecido pela minha mãe, que sabe que eu sou super-fã do senhor Cardi (como o Nuno Markl carinhosamente o trata). A capa é linda, como qualquer outro livro da Tinta da China, e é do RAP… nada mais a dizer

* Um dos últimos livros que compraste
Resultado de imagem para salazar uma biografia política
O calhamaço dos calhamaços desta lista… e já reservei o último mês deste desafio para ler esta biografia do Salazar.


E está apresentada a minha lista de livros para ler em 3 meses. Conforme já afirmei, não estou muito confiante que vá conseguir ler todos os livros, mas o importante mesmo é participar e passar alguns dos muitos livros que tenho na estante por ler para a categoria "lidos". Se conseguir ler alguns destes, sobretudo os calhamaços, já fico mesmo muito contente. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Leituras Desassossegadas #51

VOX, Christina Dalcher

«Estados Unidos da América. Um país orgulhoso de ser a pátria da liberdade e que faz disso bandeira. É por isso que tantas mulheres, como a Dra. Jean McClellan, nunca acreditaram que essas liberdades lhes pudessem ser retiradas. Nem as palavras dos políticos nem os avisos dos críticos as preparavam para isso. Pensavam: «Não. Isso aqui não pode acontecer.»
Mas aconteceu. Os americanos foram às urnas e escolheram um demagogo. Um homem que, à frente do governo, decretou que as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Até as crianças. Até a filha de Jean, Sonia. Cada palavra a mais é recompensada com um choque eléctrico, cortesia de uma pulseira obrigatória.
E isto é apenas o início.»

Bem, este era dos livros que eu mais queria ler nos últimos tempos e é também dos livros mais polémicos: muitas pessoas adoraram, outras detestaram. A premissa é muito, muito boa; no entanto, na minha opinião, a concretização não foi assim tão boa. A autora tinha uma ideia excelente e acabou por a desperdiçar.

VOX faz lembrar (e muito!) A História de uma Serva e a autora até usa a expressão "útero andante", numa clara cópia da expressão da Margaret Atwood. Há também uma cena no supermercado, que também envolve laranjas, muito parecida com uma cena de A História de uma Serva.

Enfim, a semelhança é muita, já que também é uma distopia em que as mulheres perdem os seus direitos. Conforme afirmei, a ideia inicial é excelente… o desenvolvimento da história é que não convence. Não consegui sentir o medo e o terror que, por exemplo, senti em A História de uma Serva e penso que isso se deveu, também, à forma apressada como a história é contada e acabada.

Contudo, e acima de tudo, esta é uma história de alerta. A mensagem que passa é que isto – as mulheres só poderem dizer 100 palavras por dia, ou pior – pode muito bem acontecer num futuro próximo. Se o livro nos fizer pensar – a nós, mulheres, e a nós sociedade, - já é uma leitura que vale a pena.

Por último, relembro que se quiserem comprar tanto o VOX como A História de uma Serva, ou qualquer outro livro, podem usar o meu link de afiliado da Bertrand. Não pagam mais por isso, e ajudam aqui o blog. Basta carregarem nos nomes dos livros que estão a azul. Obrigada!

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"Pensa no que precisas de fazer para continuares livre.
Fazer mais do que absolutamente nada teria sido um bom ponto de partida."

"Talvez tenha sido isto o que aconteceu na Alemanha com os nazis, na Bósnia com os Sérvios, no Ruanda com os Hutus. Tenho pensado nisso com frequência. Na forma como as crianças podem transformar-se em monstros; na forma como podem aprender que matar é aceitável e que a opressão é justa; na forma como, numa única geração, o mundo pode desviar-se do eixo, tornando-se num sítio irreconhecível."

"- Há uma resistência? – a palavra parece-me doce quando a articulo.
- Querida, há sempre uma resistência. Não andou na universidade?"

Leituras Desassossegadas #54

Sapiens , Yuval Noah Harari « Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Noah Harari analisa os principais ...