quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Leituras desassossegadas #1

O fim do homem soviético – Svetlana Aleksievitch

«Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria.
Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem.
Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por detrás de uma grande utopia.» [contracapa]

Eu gostei mesmo muito, mas muito deste livro e aconselho a toda a gente, especialmente se gostarem de história ou da época da União Soviética. Mas, para além de ser um livro sobre história, é, principalmente, um livro sobre pessoas. A autora é mestre em captar as emoções das pessoas e a transpô-las para a escrita, dado que, ao lermos, conseguimos sentir exatamente o que aquelas pessoas estavam a sentir no momento. Este O fim do homem soviético é um conjunto de relatos, opiniões, sentimentos sobre os anos vividos na era soviética e na era pós-soviética. É um livro brilhante, pessoal e perfeito para aqueles que estão interessados na Rússia moderna e em perceber este país tão complexo aos olhos do Ocidente.

Eu achei o livro bastante interessante, já que quando estudamos história na escola, só nos são ensinados os factos: «O Muro de Berlim caiu!», «A Guerra Fria acabou!», «O mundo passou de bipolar a unipolar». Mas, nunca pensamos, pelo menos eu não, o que terá sido feito daquelas pessoas que de um dia para o outro viram o seu mundo mudar completamente. A União Soviética, formada pela Rússia, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Arménia e tantos outros países, passou, de um dia para o outro, de uma união para o completo caos. No livro são muitos os relatos de, por exemplo, russos que viviam na Arménia, uma vida completamente normal, e depois do fim da URSS, passaram a ser completamente discriminados e ostracizados. Isso acontecia em todos os países integrantes da União Soviética, incluindo na Rússia. Este livro é mesmo muito bom para nos fazer perceber o que foram os dias pós-soviéticos e o que aqueles povos tiveram de sofrer.

A autora, bielorrussa e Prémio Nobel da Literatura em 2015, é considerada uma das autoras mais prestigiadas a escrever sobre a URSS e, com este livro, fiquei com mais curiosidade para ler outros livros dela [por exemplo, A Guerra não Tem Cara de Mulher ou A Oração de Chernobil].

Deixo-vos aqui algumas citações do livro para aqueles que ficaram interessados se inspirarem e para aqueles que desejam perceber mais sobre o que é isto do «homo sovieticus»:
- "O homem quer apenas viver, sem uma grande ideia. Isso nunca aconteceu na vida russa, nem a literatura russa conhece isso. Em geral nós somos gente guerreira. Ou combatíamos, ou preparávamo-nos para a guerra. Nunca vivemos de outro modo."
- "A alma russa é enigmática… Todos tentam compreendê-la… leem Dostoievski…"
- "Comunista era aquele que lia Marx, o anticomunista era aquele que o compreendia."
- "A Rússia só pode ou ser grande, ou não ser nada."
- "Na guerra ficamos a saber muitas coisas… Não há fera pior do que o homem. É o homem que mata o homem, não é a bala."
- "Não gosto da palavra «herói»… na guerra não há heróis… Quando um homem pega numa arma, já não será boa pessoa. Não conseguirá ser."

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