sábado, 2 de dezembro de 2017

Leituras Desassossegadas #4

21 discursos que mudaram o mundo - Chris Abbott 

Como estudante de Relações Internacionais e considerando-me uma pessoa interessada no que se passa e no que já se passou no mundo estou sempre à procura de livros que me ajudem a ser uma pessoa mais informada sobre as políticas externas e os líderes mais importantes dos mais variados países.

Portanto, este livro, que reúne 21 discursos (como o próprio título indica) de pessoas que, num determinado momento, foram importantes para o mundo, pareceu-me super indicado para os meus gostos. Uma das melhores coisas neste livro é que não reúne só discursos de figuras políticas importantes como, por exemplo Obama ou Churchill, ou discursos que toda a gente já conhece, já leu ou ouviu em algum lado (Martin Luther King ou Ghandi), mas reúne também discursos de figuras mais desconhecidas para o público em geral (Marie Fatayi-Williams ou Napoleon Beazley).

Eu sou uma pessoa das palavras. Desde sempre que gosto de escrever, que prefiro escrever em vez de falar. Sou por natureza uma pessoa bastante tímida e reservada e escrever sempre me deixou mais à vontade do que falar. Na introdução deste livro, citando Deval Patrick num discurso de 2006, podemos ler que "Sei que as palavras certas, ditas com a visão de um sítio melhor e com fé naquilo que não se consegue ver, são um apelo à acção".

Ao longo do livro, Abbott vai abordando, através dos discursos, temas como a imigração, a emancipação feminina, pena de morte (há um discurso de um homem que foi condenado à morte nos EUA por um crime que cometeu quando tinha 17 anos), alterações climáticas, terrorismo (há um discurso de Bin Laden), segurança e guerra, entre outros.  

Este livro está dividido em quatro partes: a primeira, chamada "O mundo inteiro é humano", a segunda "Se não estás connosco estás contra nós", a terceira "a lei do mais forte" e, por último, "Give Peace a Chance". De entre os variados discursos, gostei mais de uns, como é óbvio, e menos de outros. No entanto, achei este livro muito interessante na medida em que coloca em perspectiva muitas coisas que eu achava que eram certas ou outras que achava que eram erradas e más para a humanidade. Este livro fez-me pensar, e eu gosto de livros (e de coisas) que me façam pensar.

Sem dúvida, fez-me pensar na questão da pena de morte. O discurso que representa esta questão é de Napoleon Beazley, executado no Texas em maio de 2002. Este senhor foi condenado à pena de morte por um crime que cometeu quando tinha apenas dezassete anos… O seu discurso foi uma declaração escrita, não para dizer que era inocente ou pedir clemência, mas para protestar contra este sistema de pena de morte. As suas últimas palavras foram para contestar, dizendo que a pena de morte não traz justiça a ninguém e, pior, mostra que não existem segundas oportunidades aos olhos da justiça.
No último parágrafo da sua declaração, diz: "Dêem uma oportunidade a esses homens de fazer o que está certo. Dêem-lhes uma oportunidade de corrigir o mal que fizeram. Muitos deles querem resolver a confusão que causaram, mas não sabem como. O problema não é que as pessoas não estejam dispostas a ajudá-los, o problema é o sistema dizer-lhes que isso não faria diferença. Esta noite ninguém ganha. Ninguém sai vitorioso."  

Segundo a Amnistia Internacional, a pena de morte existe em quase sessenta países. No entanto, a esmagadora maioria das pessoas executadas são-no em apenas cinco países: China, Irão, Arábia Saudita, Paquistão e Estados Unidos da América. Sendo que nesta lista há uns que se acham os vanguardistas do progresso é um bocado estranho...

Outro discurso que me marcou bastante foi o de Marie Fatayi-Williams, a mãe de uma das vítimas da explosão num autocarro em 2005, em Londres. A explosão fez parte de uma estratégia concertada de ataques com bombistas suicidas no sistema de transportes públicos de Londres que matou cinquenta e duas pessoas e feriu outras setecentas.
Este discurso revelou a dor de uma mãe de luto pela perda do filho, no entanto, não procurou vingança contra os autores das explosões. Este discurso destacou-se, para mim, pela vontade de perdoar. É muito fácil, nestas situações, cair na tentação do ódio e da vingança, mas esta mulher, que tinha acabado de perder o filho, teve uma atitude de amor e tolerância. Se ela conseguiu, todos nós conseguimos. Fazem falta mais pessoas assim, pessoas com capacidade de renegar ao ódio.
Uma das frases que mais me marcou: "É tempo de parar e pensar. Não podemos viver com medo, porque estamos cercados pelo ódio. O ódio só gera ódio. Está na hora de travar o ciclo vicioso de matança."

Enfim, este livro está cheio de discursos, alguns inspiradores, outros evitáveis (Bush filho e Tony Blair), mas todos discursos que ajudam a mostrar como o nosso mundo foi sendo "construído". Aconselho!  


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