quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Leituras Desassossegadas #8

Isso não pode acontecer aqui – Sinclair Lewis

«Sinclair Lewis foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1930. Mas o reconhecimento pelos seus romances satíricos, críticos dos políticos corruptos e do materialismo fútil da classe média americana não abarcava ainda o presente livro, publicado em 1935, que se tornou uma obra profética após a eleição de Donald Trump.
Escrito durante a Grande Depressão e publicado quando o fascismo começava a emergir na Europa de forma alarmante, Isso não Pode Acontecer Aqui conta a história de Buzz Windrip, um demagogo xenófobo e racista que, apesar de praticamente iletrado, consegue derrotar Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais com a promessa de um regresso da América à prosperidade e ao orgulho, acabando por instaurar um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível.
No centro da acção, está Doremus Jessup, um jornalista do Connecticut que testemunha com horror a fragilidade da democracia e se torna um dos grandes resistentes à tirania, passando à clandestinidade. 
Oitenta anos depois da publicação original, este livro é assustadoramente actual.»

Como está escrito na capa, este é "um romance sobre o que aconteceria nos EUA se um ditador chegasse ao poder. Ironicamente poético. Assustadoramente contemporâneo". No início, achei a escrita do autor e a própria narração da história bastante confusas. Tive de ler e reler as primeiras páginas para me situar e habituar à escrita de Lewis. No entanto, depois de já estar habituada, foi fácil entrar no ritmo e nesta história que antes da eleição de Donald Trump parecia apenas ficção e algo de impossível de acontecer na realidade. A verdade é que já está a acontecer. Sim, Donald Trump ainda não transformou os EUA numa ditadura, mas já restringiu a liberdade a muitos cidadãos, imprensa incluída, e já proibiu a entrada de muçulmanos de oito países (Chade, Irão, Líbia, Coreia do Norte, Somália, Síria, Venezuela e Iémen) nos EUA.*

Este é um livro que todos deviam ler, especialmente aquelas pessoas que, por estarem demasiado desesperadas, caem na conversa fácil e populista de políticos que apenas querem o poder. Para vos dar um exemplo, no livro uma das promessas de Buzz Windrip é dar a todos os cidadãos estadunidenses 5.000€ anuais. Claro que isso nunca chegou a acontecer, mas as pessoas que estavam desempregadas ou que tinham uma vida miserável, não se sentido confortáveis financeiramente, acreditaram nisto e votaram nele.

Fico sempre um bocado chocada quando me dizem "não ligo nada a política. Para quê? Eles são todos iguais: todos ladrões e todos corruptos". Como é que há pessoas que não querem saber quem é que vai definir os princípios mais básicos da sua vida? Se temos liberdade, quanto ganhamos ao final do mês, se os livros são algo de essencial ou se podem ser retirados do mercado, quanto dinheiro deve ser gasto na cultura, na saúde, na educação, no tecido económico… faz-me ainda mais confusão quando são pessoas da minha idade, malta nova que nem sequer sabe quem é o Primeiro-Ministro ou nem sequer vai votar. Ah, nem vamos entrar por aí, que isso dá para outra publicação. Adiante.

Todos, mas todos devemos estar atentos aos nossos políticos, escrutinar cada decisão que eles tomam, protestar, apoiar, fazer ouvir a nossa voz. É pelo facto de as pessoas não quererem saber da política, nem quererem saber quem as governa, que Buzz Windrip (na ficção) e Donald Trump (na realidade) ganharam as eleições do país que muitos consideram ser "o país mais livre do mundo". Muito no início do livro, Doremus diz:
"- Esperem até o Buzz tomar conta de nós. Será uma verdadeira ditadura fascista!
- Absurdo! Absurdo! - vociferou Tasbrough. - Isso não pode acontecer aqui. Na América, não seria possível! Somos um país de homens livres!". A América é um país de homens livres, dizem eles! Será assim tão impossível uma ditadura naquele país? Este livro mostra que não. 



*Podem ler a notícia aqui

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