sexta-feira, 23 de março de 2018

Leituras Desassossegadas #9


Prisioneiros da Geografia – Tim Marshall

«Todos os líderes mundiais enfrentam limitações geográficas. As suas decisões são condicionadas por montanhas, rios, mares e betão. Para compreender o que abala o mundo, é necessário possuir conhecimento das ideias, movimentos e povos - mas sem um conhecimento sólido de geografia, nunca conseguiremos abarcar a totalidade dos eventos.
Se alguma vez se questionou sobre a razão de Putin ter uma obsessão pela Crimeia, de a paz parecer impossível no Médio Oriente, de os EUA entrarem em tantos conflitos armados ou de o poder da China continuar a crescer em todo o mundo, irá encontrar essas e muitas outras respostas neste livro.
Em dez capítulos que cobrem Rússia, China, EUA, América Latina, Médio Oriente, África, Índia e Paquistão, Europa, Japão e Coreias e o Árctico, o autor faz uso de mapas, ensaios e da sua longa experiência de viagens pelo globo para oferecer uma perspectiva do passado, presente e futuro, ajudando-nos a descobrir como a geografia é um factor tão determinante para a história do mundo.» [contracapa]

Conforme vos disse aqui, enquanto estudante de Relações Internacionais e enquanto pessoa bastante curiosa, estou sempre à procura de livros que me ajudem a perceber como é que o nosso mundo foi sendo construído e como é que ele funciona. Este livro é uma grande ajuda para tal. 

Sinceramente, nunca ninguém (ou quase ninguém) pensa na importância (ou dá importância, sequer) da geografia. Não pensámos que o sítio onde o nosso país está situado pode ser determinante para o seu futuro, mas a verdade é que é. Por exemplo, Portugal tornou-se num dos maiores descobridores marítimos do mundo porque não tinha outra hipótese. A única maneira de chegar à Europa e a outros locais era através de Espanha e, como todos nós sabemos, a relação luso-espanhola nem sempre foi a melhor. Assim, a única solução que Portugal tinha era aventurar-se pelo oceano, já que, do outro lado, tinha como que um muro que o impedia de passar. Esta é, sem dúvida, uma das principais causas para que Portugal se tenha afirmado nos mares e oceanos.

Este livro (e outros que tenho lido) fez-me pensar na sorte que nós temos em viver em Portugal – somos um povo maioritariamente homogéneo e é por isso que (quase) não temos conflitos no nosso país. Os países africanos e do Médio Oriente são o exemplo máximo de que uma nação constituída por várias etnias ou culturas pode trazer muitos problemas, incluindo guerras civis, que acabam por causar o colapso do Estado-nação. Mas, não é preciso ir tão longe – a nossa vizinha Espanha é um país bastante heterogéneo, em que, basicamente, só Madrid é que se sente espanhol. Como vimos recentemente com a Catalunha, mas também com o País Basco, é muito complicado quando as pessoas não se sentem parte ou pertencentes ao Estado em que vivem e desejam, portanto, criar um novo. Como vêem, Portugal não tem nada disso e, apesar de termos muitos problemas, a conflitualidade étnica não é um deles.

Para além disso, o livro mostra as culpas que a colonização, por parte dos europeus, têm no colapso ou nas guerras civis de muitos países. Através da Conferência de Berlim, em que os europeus desenharam as fronteiras de África a régua e esquadro, e do Acordo Sykes-Picot, em que franceses e ingleses dividiram entre si o Médio Oriente, é que muitos dos conflitos existem nos dias de hoje. O autor declara que "muitos africanos são, hoje, prisioneiros da geografia política fabricada pelos europeus – os conflitos étnicos dentro do Sudão, da Somália, do Quénia, de Angola, da República Democrática do Congo, da Nigéria, do Mali e de outros locais são a prova de que a ideia europeia de geografia não se enquadrou na realidade da demografia africana." O mesmo acontece no Médio Oriente.
O autor constata que "a criação arbitrária de «Estados-nação» congregando pessoas que não estão habituadas a viver juntas na mesma região não é uma boa receita para gerar justiça, igualdade e estabilidade" e, sem dúvida, que isto deve ser algo que deve pesar na consciência de todos os europeus, sobretudo dos líderes políticos.

Enquanto fui lendo o livro, fui partilhando alguns factos no Twitter (podem seguir-me em @desassossegada9), e o livro começa assim: "Vladimir Putin diz-se um homem religioso, um grande apoiante da Igreja Ortodoxa russa. Assim sendo, é bem possível que, todas as noites, quando se deita, faça as suas orações e pergunte a Deus: «Porque não puseste montanhas na Ucrânia?»". Piadas à parte, o autor afirma que "A terra em que vivemos sempre nos moldou. Moldou as guerras, o poder, a política e o desenvolvimento social dos povos que, hoje, habitam quase todo o planeta. A tecnologia pode parecer ultrapassar as distâncias, tanto no espaço mental como no físico, mas é fácil esquecer que a terra onde vivemos, trabalhamos e criamos os nossos filhos tem uma importância crucial".
Se gostarem do tema, se forem curiosos e quiserem saber um bocadinho mais sobre política internacional, aconselho-vos!




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