sexta-feira, 18 de maio de 2018

Leituras Desassossegadas #14

E Agora, Zé-Ninguém? – Hans Fallada

«Alemanha, finais dos anos 20. Apesar da grave crise económica que afecta a vida de muita gente, Johannes e Emma, carinhosamente chamada Cordeirinha pelo seu caloroso marido, levam a vida com confiança e entusiasmo. Acreditam que apoiando-se no amor podem superar todas as dificuldades, mas rapidamente se apercebem de que a sorte não está do seu lado e que a realidade é muito mais dura de enfrentar do que tinham imaginado. A chegada do seu tão desejado filho vai trazer-lhes muitas alegrias, mas também juntará novas dificuldades à vida do jovem casal.
Quando por fim Johannes Pinneberg se vê obrigado a engrossar as fileiras dos milhares de desempregados já existentes, é Cordeirinha, esta mulher amável, meiga e corajosa que – em lugar do seu marido, transformado num desesperado zé-ninguém – assume a dianteira e assegura a existência de toda a família.
A esperança, porém, nunca se perde, e o casal refugia-se no amor que o une e do qual se alimenta.»

Este é um romance especialmente dedicado à crise vivida no final dos anos 20/início da década de 30, depois da Primeira Guerra Mundial, e que afectou todos os países europeus, mas, especialmente, a Alemanha que teve de pagar indemnizações altíssimas aos Aliados no pós-guerra. É um romance entre guerras, que traduz magistralmente o que foi viver naquela altura, sobretudo em Berlim, uma das cidades mais afectadas pela Primeira Grande Guerra.

Este livro fez-me pensar na inevitabilidade da vida e no facto de depois de alguém se tornar num "zé-ninguém" é muito difícil voltar a sair desse lodo. Na década de 20 ainda mais do que nos dias de hoje, é um facto, já que os subsídios dados pelo Estado aos desempregados eram absolutamente ridículos e o nível de vida era consideravelmente inferior. 

É um livro bastante descritivo, o que resulta num retrato bastante fiel do que era ser uma pessoa humilde que teve a infelicidade de estar desempregada. Este foi o primeiro livro que li de Hans Fallada, mas adorei a sua escrita magistral, que consegue pôr-nos debaixo da pele do protagonista e transmitir-nos o seu medo, a sua revolta e as suas pequenas alegrias como se fossem nossas.

É muito difícil ficarmos indiferentes a uma história destas e, infelizmente, as situações retratadas no livro são ainda, nos dias de hoje, bastante familiares. A natureza humana não muda assim tanto: são os empregadores que abusam da situação de medo por parte dos empregados de ficarem desempregados, são os conhecidos que mudam de passeio quando encontram o "zé-ninguém", as reacções das pessoas às dificuldades, o amor que, apesar de não resolver tudo, pode ajudar a ultrapassar a situação de uma forma menos dolorosa. Aconselho!

"Como é que é possível rir, rir a sério e com vontade, num mundo como este, em que aqueles que dirigem a economia e cometeram milhares de erros são desculpados e os mais pequenos, que sempre deram o seu melhor, são aviltados e pisados?"

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